quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ESPELHO: Enxerguei minha mãe em mim!

Texto meu publicado originalmente na coluna NO QUINTAL, do VILA MAMÍFERA. O link do artigo no Vila está aqui: http://vilamamifera.com/noquintal/por-adriana-ramos/


É impressionante como mudamos depois que nos tornamos mães. E esse assunto tem martelado na minha cabeça nos últimos dias. Essa semana especialmente vi minha mãe dentro de mim em vários momentos. E a vi com todos os seus defeitos, qualidades, inseguranças e certezas. Vi aquela mãe, que muitas vezes, tinha atitudes que eu descordava, que eu não aceitava, que eu muitas vezes não compreendia. 

Lembro-me muito bem que todas as vezes em que eu fazia algo que a desagradava, ela falava muito. Repetia, gritava, dava muita bronca, falava alto. Nada de agressão física. Nunca apanhei da minha velhinha. Mas a danada falava demais. Chegava a irritar. Quantas vezes eu já não lembrava mais do que tinha feito, mas lá estava ela falando, falando, falando. E ai de mim se caia na tentação de pedir para ela parar ou se dizia algo como “Tá bom. Já entendi”. Ela rapidamente retrucava com um “Não me manda ficar quieta! Eu falo o quanto quiser!”. E o blá blá blá começava novamente. 

Essa semana Rafa, meu caçula de 4 anos, me tirou do sério. Por um motivo bobo, um desentendimento dele com o irmão por uma bobagem precisei intermediá-los por que a “coisa” estava ficando séria demais. Eles estavam na sala, eu no quarto trabalhando. Pedi de longe para os dois pararem. Não deram bola. Minha mãe, que estava em casa naquele momento, tentou apaziguar, mas não resolveu. Ameacei ir pra sala. Continuaram. Fui. Mas fui num momento em que faltava uma gota pro copo transbordar. Cheguei irritada. Cuspindo fogo. Matheus, o mais velho de 8 anos, que conhece muito bem o limite da mãe, parou na hora. Mas Rafa não. Ele é insistente e não tem noção do perigo. Continuou debochando do irmão e começou a repetir o que eu falava com desdém. Peguei ele pelo braço, o coloquei num banco pra pensar e continuei falando, falando, falando como minha mãe, no passado. Chegou uma hora em que ele disse “blá blá blá”. Fiquei furiosa. Como assim, aquele pirralho de 4 anos está reclamando que eu estou falando demais? Falei mais ainda. Exatamente como minha mãe fazia e eu detestava. 

De repente, olhei pro Rafa e enxerguei uma menina gorduchinha, com duas trancinhas e que usava botas ortopédicas nos anos 80. Olhei no espelho e vi a dona Ivone, minha mãe, mais jovem, de algumas décadas atrás, inconformada com tudo o que estava acontecendo. “Mal criado. Respondão! O que você está pensando da vida?”, eu falava. Igualzinho ela fazia! 

A história minha com o Rafa terminou com chororô dele. Acabei o repreendendo pelas suas atitudes e, quando a ficha dele caiu, ele ficou mal e se desculpou pelo que tinha feito. Mas a história pra mim não terminou até agora. Essa explosão de sentimentos e agitação fez com que eu pensasse e repensasse a minha vida, a maternidade, o que quero e acredito para os meus filhos. Antes de ser mãe jurava pra mim mesma que seria completamente diferente dos meus pais. Reconhecia, claro, suas qualidades e suas boas intenções. Mas gostaria de ser mais paciente do que meu pai (ele era tolerância zero!). Queria saber escutar mais e julgar menos. A dar “bola” para os sentimentos dos meus filhos sem desprezá-los julgando ser uma bobagem qualquer, mesmo que pra mim aquilo pudesse ser uma bobagem de criança. Queria ter mais tempo para curti-los de verdade e de fato sem ter que empurrar com a barriga a maternidade no meio das zilhões de tarefas do dia a dia. Queria ser mais paciente. Menos explosiva. Mais cautelosa com as palavras. Menos irritadiça. Queria saber separar mais as situações e jamais descontar um descontentamento ou um problema pontual em quem não tem nada a ver com isso.

E não estou falando em culpa. Nesse caso, não rola culpa. Só uma constatação: o espelho que tive na infância reflete hoje nos meus atos. Não é sempre. Não é o tempo todo. Mas as vezes a mãe que eu tive, se mistura com a mãe que eu sou. E o Rafa? Ah, o Rafa é o meu espelho de infância, é o meu espelho de hoje… Enxergo minhas atitudes no meu pequeno diariamente. Se sou doce, ele é. Se sou brusca, ele é. Mas de tudo isso a lição: Rafa, sem sequer imaginar, consegue, em suas birras, mostrar quem fui, quem sou e quem quero ser.

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